quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Histeria: como somos para nós mesmos e como somos para os outros (parte 1)

De acordo com Sigmund Freud em seu "Estudo sobre Histeria", histeria é uma patologia mental causada por uma incompatibilidade entre o ego (eu real) e uma ideia incompatível sobre si mesmo (eu representativo) com consequências físicas relacionadas com essa incompatibilidade.

Hysteria
Mari Merabi
Imaginem a seguinte situação: uma mulher é extremamente religiosa e sua religião prega a castidade. Ela tem desejos sexuais intensos por um homem. Ela sonha com esse homem tendo relações sexuais, pega-se imaginando como seria e um dia se masturba pensando nele! Nesse dia, ela se recriminará, sentir-se-á culpada e tomará uma decisão: pedirá perdão pelo "pecado" e nunca mais fará isso. Passam-se alguns dias e ela segue o prometido, mas, outro dia, ela o vê na rua e ao chegar em casa, não resiste e sonha e deseja e se masturba de novo. Ela se arrepende, a culpa a corrói e ela pede perdão novamente. Lendo o livro sagrado de sua religião que “se tua mão te fizer pecar, corta-a fora” ela entra em um estado catatônico, no qual seus braços não se movem e suas mãos ficam totalmente paralisadas. Isso ocorre vez ou outra em sua vida e ninguém sabe o que fazer.

Observem que existe a mulher real que é aquela que tem o desejo sexual e a mulher representativa, que é o seu "eu social" ou como ela se mostra para as outras pessoas.

O estado catatônico é o modo de “normalizar” a sua condição: com os braços paralisados ela não pode se masturbar, então seu eu real pode satisfazer fisicamente (e forçosamente) seu representativo. Ela pode se aceitar – de uma forma problemática, é claro, mas foi o modo encontrado para normalizar sua situação.
Os organismos estão sempre “buscando” o que lhes é mais agradável – e o que agradável para essa mulher, por mais estranho que pareça, é se aceitar; e a única forma que seu organismo encontrou foi causando a catatonia.

Mais: acredito que o termo real e representativo sejam equivocados: a mulher representativa também é real! Não é antinatural a vida religiosa que ela segue (nada no ser humano é antinatural), é sim intencional e/ou circunstancial. Já a vida chamada de "real" é meramente aquela que segue os desejos naturais do corpo: fome, sede, desejo sexual etc.

O homem é moldado por seu ambiente, mas não significa que as censuras que o ambiente lhe impõe (restrições no comportamento) não são parte do seu eu real: nós também somos o ambiente que nos molda, fazemos parte dele e moldamos o outro dando-lhes as mesmas restrições!
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Em um próximo post falarei mais sobre histeria: como era na época de Freud, como é atualmente e quais são as principais histerias da atualidade.

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