quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Comportamento: vítimas e carrascos

Painting by Dimitri Kozma (Loneliness)


Existem dois tipos de comportamento que por muito tempo serviram para me tornar alguém moralmente mais fraco e que agora busco evita-los ao máximo nas minhas relações pessoais: o primeiro é a vítima e o segundo é o de redentor compassivo.

A vítima é aquele que se vê apenas como um agente passivo de todas as circunstâncias que lhe ocorrerem. Tudo que fazem ou dizem para ele foi para magoá-lo e qualquer tipo de comportamento ruim que a vítima venha a ter foi para revidar por outra pessoa tê-lo feito assim. Se formos procurar os culpados de tudo que há no mundo nunca chegaremos a um fim: colocar a culpa no meu pai ausente que é ausente porque seu pai nunca estava em casa porque traía sua mãe que por isso teve depressão e que também sua mãe tinha depressão, mas por ter descoberto o marido na cama com outro homem e ele era assim por ter sido abusado sexualmente na infância ad infinitum... Apenas as crianças e os incapacitados têm o direito de serem vítimas das situações. A única coisa na qual somos vítimas é da circunstância de estarmos vivos.

O redentor é o outro lado da moeda que encontrei para compensar meu lado vítima de ser: sentir-me culpado por tudo. Ao invés de acreditar que todos eram culpados por minhas mazelas, eu me sentia culpado pelas mazelas de todos. Queria ser um redentor, que salvava e cuidava dos problemas de todos. Do mesmo jeito que ninguém é culpado por quem eu sou, ninguém também está absolutamente sob minha responsabilidade para eu me sentir todo culpado. Há coisas que fazemos e que precisam ser consertadas: se não for possível, que se deixe ir embora.

Eu sei que não parei de fazer essas coisas: nenhum comportamento deixa de existir totalmente. Está sempre lá e um dia ou outro acabamos por fazer uma prática que há muito deixamos de fazer. Mas depois que me atentei para parar com isso, me senti muito mais leve, maduro e menos manipulador. Sim, tais comportamentos são manipulações. A vítima quer ser adulada, cuidada – quer que os outros a vejam como um coitado que precisa ser acolhido e defendido. O redentor é o herói de todos: agrada-lhe a idéia de ser um salvador, responsável por todas as dores do mundo.

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