sábado, 6 de outubro de 2012

A interpretação dos sonhos

Freud, em seu livro “A interpretação dos sonhos” (1900), faz uma análise aprofundada das origens dos sonhos. Afirma que os sonhos são aquilo que não podemos aceitar em vigília (acordados), mas que queremos profundamente, por isso a expressão comum atribuída a Freud “sonhos são desejos reprimidos”. Mas não são apenas desejos conscientes, como imaginamos que sejam as coisas que desejamos, mas sim complexos processos inconscientes que não temos acesso conscientemente. Ou seja: quando sonhamos que estamos nus em público ou assassinando friamente um irmão é porque gostaríamos de fazê-lo, mas gostaríamos inconscientemente, por isso mesmo essa informação só nos é revelada na forma de sonhos enigmáticos.

Mas o que significa matar ou estar nu em público em um sonho? É o desejo puro e simples de assassinarmos uma pessoa ou ficarmos pelados publicamente? Certamente que não. Assim como os sonhos nos trazem mensagens codificadas, nossos desejos expressos pelos sonhos também são metafóricos. Matar um irmão não significa, em um sonho, matá-lo fisicamente, mas destruir algum aspecto que, mesmo sem saber, você odeia – claro que também pode ser a morte física do sujeito, mas, em geral, o sonho não será tão literal assim. Ou então o exemplo de estar nu em público: pode ser o desejo de ter mais liberdade em algum aspecto da vida e as roupas seriam um símbolo de algo que está a prender a pessoa que sonha.

Exploded Head
Salvador Dali (1982)
Não existe uma realidade que possamos comparar durante os sonhos. É por isso que as situações mais inusitadas e ilusórias são tidas como normais nos sonhos. Se estou com uma pessoa que eu não deveria estar (ou por ela já ter morrido ou porque é algo inimaginável) ou se de repente, em um sonho, um morto se levanta ou um cachorro de terno e gravata declama Carlos Drummond de Andrade e isso não nos choca nem um pouco dentro do sonho, é justamente porque não existe a realidade externa, a qual estamos acostumados, para compará-la. Quando sonhamos, a realidade é o próprio sonho, é por isso que só achamos um sonho absurdo quando acordamos e podemos comparar com nossa “realidade real” e no sonho tudo era perfeitamente normal e até banal.

Segundo o documentário “Grandes livros: Freud e a interpretação dos sonhos”, perdeu muito a importância da interpretação de sonhos nos consultórios psicanalíticos, apesar de continuar o interesse das pessoas pelos seus próprios sonhos. Existem, entretanto, outros métodos de acesso ao inconsciente, segundo a Psicanálise, que são métodos mais rápidos e confiáveis, já que ao acordarmos e relatarmos um sonho podemos incluir fatores que pensamos que sonhamos, mas que estamos incluindo durante o relato do mesmo.

Sonhos, afinal, são mensagens do nosso inconsciente sobre situações que vivemos mas que não conseguimos pensar conscientemente. O inconsciente não cede a pressões exteriores, não possui uma moralidade como conhecemos, não está à mercê de sentimentos como medo, vergonha, intimidação. Ele apenas mostra o que nos recusamos a ver, mas revela-nos as informações de modo misterioso e enigmático, pois suas muitas informações (afirma-se que o inconsciente pode reter todas as informações que tivemos durante toda a vida, exceto em casos de dano físico no cérebro) unem-se para contar-nos o que não temos coragem de admitir conscientemente.

Quem tem coragem de encarar sem medo seu lado mais sombrio?

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...