quinta-feira, 7 de julho de 2011

O Eu profundo e outros Eus


Comecei a ler o livro “O Eu profundo e os outros Eus”, uma coletânea de poemas de Fernando Pessoa, da editora Nova Fronteira, e percebi o quão comportamentalista são as ideias do poeta português. Ele não enxerga o homem como um ser no qual seus pensamentos sejam mais importantes que suas ações, mas ao contrário. Para Pessoa, na verdade para o seu pseudônimo-mor, Alberto Caeiro, o pensamento é secundário, mas a experiência dos sentidos é que tem a real importância na vida de uma pessoa.

Mas o que é a experiência dos sentidos? É sentir as coisas do jeito que elas são, sem procurar significados ocultos que, no fundo, são apenas representações de nós mesmos sobre o mundo. Como em algumas passagens de um dos seus poemas mais famosos, o Guardador de Rebanhos:

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...” (parte II)

“O único sentido íntimo das coisas é elas não terem sentido íntimo nenhum” (parte V)

“Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos. E a de dar frutos na sua hora, o que não nos faz pensar”

“Quem está ao sol e fecha os olhos, começa a não saber o que é o sol e a pensar muitas coisas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, e já não pode pensar em nada, porque a luz do sol vale mais que os pensamentos”

“Penso com os olhos e com os ouvidos/E com as mãos e os pés/E com o nariz e a boca.” (parte IX)

“O que nós vemos das coisas são as coisas. Por que veríamos nós uma coisa se houvesse outra? Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos/se ver e ouvir são ver e ouvir?” (XXIV)


Nós pensamos com o corpo. As memórias de nossa vida estão gravadas por todo nosso corpo e isso faz com que nos tornemos diversos em um só. O “Eu”, que segundo a filosofia antiga, é um ente que guarda a nossa essência única e que apenas com grande esforço pode ser revelado exteriormente é, na verdade, “Eus”, como os diversos pseudônimos de Pessoa. O poeta compreendia que somos vários em um só e que cada coisa no mundo “desperta”, em um dado momento, um desses nossos eus (Alberto Caeiro é mais racional, Ricardo Reis é mais emotivo, Álvaro de Campos é mais pessimista, e o “eu” predominante que é o próprio Fernando Pessoa, que poderia ser uma mistura de todos seus outros eus). Existe um eu que está mais presente que os outros, já que existirão certas circunstâncias (pessoas, lugares, coisas etc) que estarão mais tempo a nossa disposição e, então, seremos por mais um tempo um “eu” apenas, mas isso não significa que este seja o mais importante, muito menos que seja o preferido (talvez na maioria das vezes é o menos desejado). E Fernando Pessoa sabia que quando ele olhava para uma flor e sentia seu perfume ele era um outro completamente diferente de quando entrava numa numa tabacaria para comprar tabaco ou mesmo quando ele passa horas sentado a ver a correnteza de um rio calmo enquanto suas mãos estão enlaçadas com a de uma mulher...

Qualquer coisa pode despertar um “eu” escondido em nós mesmos: um cheiro de comida que nos lembra uma determinada época de nossas vidas, nosso filho brincando fazendo transformarmo-nos em crianças por alguns instantes, um stress no trânsito que, mesmo numa pessoa “sempre calma” faz acordar uma personalidade raivosa e briguenta, ouvir uma música que faz com que imaginemos uma vida totalmente diferente da que possuímos e por um instante, enquanto ouve-se aquela música, realmente possuímos aquela vida alternativa e até mesmo um pensamento pode acordar um “eu”, não mais importante que os outros estímulos, o pensamento, como uma lembrança de uma determinada vivência, nos levará, pelo momento que durar a ideia, a termos aqueles mesmos comportamentos que nosso corpo um dia teve e, de repente, lá estamos nós revivendo antigas experiências quase como se estivéssemos naquela época novamente!

Para finalizar, o poema número 25 de “O Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro, falando um pouco em como as crianças veem o mundo de uma forma simples, sem buscar significados profundos:

As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.

Claras, inúteis e passageiras como a natureza,
Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Como uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.

Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

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