quarta-feira, 22 de junho de 2011

"Eu me sinto a pessoa mais rejeitada do mundo", diz o homem que não entende as pessoas

Não tenho o costume de analisar obras de arte, mas senti vontade de criar esse hábito e para iniciar uma série de recomendações de filmes (e livros) gostaria de falar um pouco sobre um filme que assisti recentemente “O Enigma de Kaspar Hauser” (no original alemão, Jeder für sich und Gott gegen alle ou melhor traduzido: cada um por si e Deus contra todos¹).

Resumindo: Kaspar Hauser é um garoto encontrado numa praça em Nuremberg, em 1828. Ele só dizia algumas palavras e sabia escrever seu nome. No filme, mostra que ele vivia aprisionado numa torre por um homem misterioso que o alimentava apenas de pão e água e esse foi o mesmo homem que o abandonou no meio da cidade.

Os habitantes de Nuremberg, curiosos, começam então a cuidar do rapaz. Um tempo ele fica na casa de um, depois vai pra casa de outro e aos poucos, eles vão lhe ensinando a falar e a se portar como uma pessoa civilizada.

Mas, algo acontece: Kaspar Hauser se sente cada vez mais infeliz. Várias vezes ele afirma que sua cama é o lugar mais feliz que existe e, numa cena memorável, uma mulher da alta sociedade pergunta-lhe como era viver no cativeiro e ele responde (a ótima interpretação do ator alemão, Bruno S.): “Muito melhor no cativeiro do que aqui”.

O problema de Kaspar, que antes vivia como um animal, apenas comia, dormia, brincava com um cavalinho de madeira e fazia suas necessidades e, de repente, tendo que, naquela sociedade civilizada, usar certas roupas, comer determinadas comidas (ele odiava carne e cerveja, já que nunca tinha comido ou bebido essas coisas) e se comportar de acordo com certas regras. Numa outra cena interessante, ele afirma que não entende como as pessoas podem acreditar que deus criou tudo do nada. Esta é uma história real, mas talvez essa cena seja ficção. Porém, achei interessante a ideia do diretor (se realmente for ficcional essa parte) de afirmar que um ser selvagem, praticamente um animal, não tem crença em divindades, ele apenas vive junto com a natureza.

Fiquei pensando após o filme que a história de Kaspar Hauser não é apenas sobre um garoto selvagem encontrado no meio do nada, mas uma história muito mais universal, que é vivida por muitas pessoas, inclusive eu mesmo: de repente, nós nos vemos vivendo numa sociedade cheia de regras sociais e que exige determinados comportamentos que não gostaríamos de ter. Tentamos, assim como Kaspar, fazer perguntas a respeito disso: “Mas, por que é assim?”, porém, poucos estão interessados em responder e vamos nos tornando cada vez mais infelizes e solitários no meio de um monte de pessoas iguais a nós.

¹ Cada um por si e Deus contra todos é uma frase do livro Macunaíma, de Mário de Andrade.

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