terça-feira, 7 de junho de 2011

Adaptar-se para sobreviver


Dia 28 do mês de maio foi o meu aniversário de 6 meses sem drogas e resolvi escrever um pequeno texto sobre minha experiência, algo que venho guardando desde que resolvi “verdadeiramente parar” e não o famoso, mas real “eu paro quando quero”. Fui internado em algum dia do mês de novembro de 2010 e nesse lugar que vivi eu aprendi muitas coisas interessantes sobre minha vida, outras nem tanto. Aprendi de bom que não se foge dos problemas criando um problema maior, que o vício da vida comum por dificuldades não é aplacado pelo vício em substâncias químicas, na verdade, quando se entra numa vida paralela pelas drogas não se está fugindo dos outros problemas da sua vida, pois eles continuam lá e até mesmo se acentuam, o usuário está cada vez mais incapacitado a resolvê-los, mais e mais distante de encontrar uma solução. Aprendi, enfim, a tentar ser forte quando tudo parece estar contra você, principalmente você mesmo. Ensinaram-me, inclusive, que a pior companhia de uma pessoa é ela mesma, pois é a única que se leva a se auto-destruir. Bem, é aí que começo a discordar do que me foi ensinado.

Em meio a ruínas: quem está comigo? (Fallout 3 screenshot)
Quando saí da internação, o conselho principal era que frequentasse as reuniões dos Narcóticos Anônimos (NA), grupo de auto-ajuda onde as pessoas se encontram para relatar seus problemas com drogas. Comecei a frequentar, mas logo no início percebi algo estranho que acontecia comigo: todas as vezes que ia para essas reuniões, saia de lá com uma vontade grande de usar. Era como se durante toda a semana eu esquecesse a minha condição de “viciado” (ou adicto, como eles chamam) e, ao chegar no encontro, eu relembrava tudo de volta: inclusive que, no fundo, meu corpo queria usar drogas. Parei, aos poucos, de ir. Com vergonha de dar explicações, eu inventava desculpas aos amigos de lá, dizendo que estava ocupado, que hoje não era possível devido a outro compromisso, mas a verdade é que eu já não me sentia bem naquele ambiente. Obviamente, com o tempo, eles perceberam que eu já não iria mais e fui acusado de estar “recaindo”, de estar “desobedecendo a programação”, esta feita pelos conselhos da internação.

Comecei, então, a estudar Psicologia. Já possuía um pouco de noção sobre assuntos psicológicos graças a um amigo que havia cursado e me recomendou diversos livros que li com enorme prazer e interesse. Antes mesmo de entrar para o curso, apesar de negar veementemente, eu já sabia onde se encontrava o meu futuro: na análise da mente humana. E comecei a estudar e estudar e aprender diversas coisas interessantes. Aprendi, por exemplo, durante um curso sobre hipnose que uma ideia repetida várias e várias vezes não pode ser esquecida. Mesmo que conscientemente se esqueça, seu inconsciente ainda manterá aquela ideia (e logo, aquele comportamento) dentro de você. De repente, tive um insight: era isso o que me fazia mal nas reuniões de NA. Eu tentava fugir da ideia que meu corpo ainda pedia por drogas, mas a repetição de frases como “Oi, meu nome é Petrus, um viciado em recuperação”, apenas trazia à tona (ao meu consciente) todos as ideias (ou seja, comportamentos), que eu não queria mais ter.

Fiz então o caminho inverso do que se recomenda nos NA e na internação. Tornei-me meu melhor amigo e minha melhor companhia. Sabia que havia errado comigo mesmo, mas que isso não era motivo para ter medo de estar sozinho: na verdade, saber estar sozinho seria, para mim, um dos pressupostos para estar bem, já que a maioria do tempo eu estaria só (como numa música de uma antiga banda parafraseando Ortega y Gasset, "somos só nós dois, eu e minhas circunstâncias).

Parei de frequentar as reuniões de NA e de repetir para minha cabeça a ideia do uso de drogas – isso seria o mais extremamente não-recomendado a se fazer pelos conselheiros da internação. E devo dizer, essa foi uma das melhores coisas que fiz. Rapidamente senti os efeitos de parar de pensar nisso e me senti muito melhor!

Por fim, decidi que deveria aprender tudo o que era necessário para tentar ajudar a resolver esse problema social. Ao invés de pensar nisso como um mal que eu vivi e que me perseguiria para o resto da vida, eu poderia pensar nisso como uma chance que tive para ver de perto o que está acontecendo e, talvez, encontrar um meio mais eficaz de ajudar as pessoas com o mesmo problema que tive.

Há muito trabalho a ser feito...

8 comentários:

Dennis Arias/PI disse...

Petrus, tive curiosidade na postagem que você fez no face e resolvi ler o blog. Eu não sabia da luta que você está enfrentando. Achei mito bacana sua decisão e a força em que encontrou para seguir nela. Você tem a mente muito forte, é dono dela e sabe como melhorá-la. Tenho absoluta certeza que vai conseguir. Não somos próximos, mas no que precisar,sou bem acessível!! Valeu. Vou tomar a liberdade de acompanhar tuas postagens no face e torcer pelo avanço...Abç

Mente voadora disse...

Há muito trabalho a ser feito...

wilena disse...

Petrus, muito bom seu texto, sensível, porém um tapa, a não ser o fato de não ser usuaria de drogas, me identifiquei bastante com as reflexões..abraço

wilena weronez

Isadora disse...

É... Muito bem!

Isadora disse...

É... muito bem!

Marquinho disse...

Olá, Petrus!

Antes de tudo, gostaria de parabenizá-lo pelos seus recém conquistados seis meses limpo. Realmente, é motivo de grande comemoração. Torço pra que muitos e muitos outros meses venham pela frente. Parabéns!

Achei muito interessante as suas colocações, mas espero que não se importe e, muito menos, se sinta ofendido pelas minhas colocações. Gostaria de esclarecer algumas questões mencionadas por você sobre Narcóticos Anônimos que podem levar a um entendimento errôneo sobre esta irmandade. Primeiramente, NA não possui grupos de auto-ajuda (onde eu me ajudo), e sim de mútua-ajuda (onde uns ajudam os outros). Outro ponto é que, o objetivo das reuniões não e “relatar seus problemas com drogas”. As reuniões de NA proporcionam uma atmosfera de na qual adictos podem trocar experiências com o propósito de recuperação da doença da adicção. O grupo proporciona a cada membro a oportunidade de partilhar e de escutar a experiência de outros adictos que estão aprendendo a viver melhor sem o uso de drogas. Este questão é muito importante para entender NA. A chave de sucesso desta irmandade é a ferramenta terapêutica da ajuda de um adicto a outro adicto. Quanto ao programa de recuperação de NA, não existe “desobediência” ao programa. Em NA nada é imposto, tudo é sugerido. E todas estas sugestões são frutos da experiência de adictos que vêm se recuperando desde que NA foi fundado. Nessa irmandade não existem “obrigações”, nem mesmo a de estar limpo. O único requisito para ser membro é o desejo de parar de usar, e este desejo só cabe ao indivíduo. Além da empatia gerada pela identificação entre os membros, NA também oferece um programa de recuperação de 12 Passos: um conjunto de princípios escritos de uma maneira tão simples que é possível segui-los nas nossas vidas diárias. O mais importante é que eles funcionam. E posso dizer isso com propriedade. Meu nome é Marcus. Sou uma adicto em recuperação e, só por hoje, graças a Deus e a irmandade mundial de Narcóticos Anônimos, me encontro limpo a 4 anos, 2 meses e 10 dias.

Eu me identifico com você, Petrus. Também passei por um tratamento de internação e vivenciei o impasse de me deparar com algo com o qual não concordava. Aliás, foram várias discordâncias. Foi quando meu padrinho me ajudou a perceber que o problema não estava nas idéias que me eram sugeridas, mas em mim. A solução? Mente aberta. E a partir daí, tudo passou a me parecer mais aceitável e, assim, a recuperação se tornou possível. Pude perceber que a minha relutância era um reflexo da minha natureza auto-suficiente. Aquele orgulho de querer resolver as coisas “do meu jeito” sempre queria prevalecer. Uma dessas minhas idéias era acreditar que precisava enterrar o meu passado em um buraco profundo e colocar uma pedra bem pesada em cima, para que não precisasse me lembrar mais do que eu fiz. Mero engano! Descobri que “quem esquece o seu passado, está condenado a repeti-lo”. Só por hoje, preciso estar plenamente consciente da minha condição de adicto, ou seja, um ser limitado que precisa evitar pessoas, lugares e situações que me remetam a adicção ativa. Para isso, precisei abrir mão das minhas idéias para aprender a viver em recuperação através da experiência de outros adictos que, através de suas partilhas francas e honestas, mostram pra mim que é possível viver e apreciar a vida sem drogas. Foi por isso que, assim como você, também me foi sugerido que, após o meu tratamento, eu freqüentasse as reuniões de Narcóticos Anônimos.

(continua)

Marquinho disse...

Em NA , outra coisa que também me incomodava era a idéia de ter que admitir, de forma definitiva, que era impotente perante a minha doença – a adicção (primeiro passo). Sempre acreditei que, para me libertar das drogas, necessitaria apenas de força de vontade. Aí estava o meu engano... por isso não conseguia parar sozinho. Queria ser forte, quando, na verdade era fraco. Mas como então me livrar deste poder destrutivo admitindo que era um fraco, um doente, um fracassado? Boa vontade! A vontade de fazer o que é bom. Para isso, precisei entender que só eu posso, mas sozinho não consigo. Preciso de um Poder Superior que possa me devolver à sanidade (segundo passo). Preciso entender que, por mais desagradável que possa parecer admitir de que sou um adicto, não preciso mais me sentir culpado ou envergonhado, pois sei que os absurdos que cometi foram movidos pela minha doença, não por ser um mau caráter. Foi necessário um trabalho de humildade muito grande, trabalho este que ainda tenho procurado praticar diariamente, pois não posso esquecer que sou um adicto e que, a qualquer momento, se eu me esquecer de onde vim, posso voltar a cometer as mesmas insanidades de antes. Hoje, só por hoje, preciso me esforçar para que não prevaleçam mais as minhas vontades, mais a vontade de Deus (terceiro passo)... “e mais será revelado”.

Esses são apenas alguns exemplos de despertares espirituais que este programa tem me proporcionado. Sou grato a misericórdia Divina que me permitiu conhecer esse programa de recuperação maravilhoso e que está salvando a minha vida. Também me identifico com você quanto à idéia de que talvez fosse necessário passar por tudo o que passei para que hoje pudesse ser um instrumento da vontade de Deus na vida de outras pessoas que sofrem do mesmo mal que eu sofro. Todavia, a forma que encontrei de manifestar esta gratidão e, ao mesmo tempo satisfazer esse ideal, é voltar às reuniões e partilhar com o aquele irmão de ainda sofre a mensagem de NA: “um adicto, qualquer adicto, pode parar de usar, perder o desejo de usar e encontrar uma nova maneira de viver”. Só por hoje!

num_dorme disse...

Olá Petrus!!!
Meu nome é Vitor e eu tb sou um adicto em recuperação hoje. Graças a um bom Deus, a essa programação e um pouco da minha boa vontade.
Gostei muito do seu texto e acho q ele confirma a perfeição dessa programação. Pois no nosso Texto Basico existe um paragrafo q diz: "Sentimos que o estado ideal da nossa irmandade é quando adictos podem ir livre e abertamente à uma reunião, onde e quando quiserem, e partir com igual liberdade."
Aprendi algumas coisas desde que comecei essa luta diária de me manter limpo, e uma delas é que "minha medida sou eu".
Enquanto eu continuei indo para as reuniões sem mudar meus comportamentos e minhas atitudes, com vontade de usar droga, eu só ouvia "pessoas falando sobre o uso de drogas". É logico q isso existe de fato. Mas a partir do momento que eu consegui mudar algumas coisas em minha vida, eu consegui ouvir essas coisas e nõ levá-las pra casa comigo. Passei a ficar mais encantado com alguns companheiros que estão a mais tempo limpo (ou até os que estão com pouco tempo) partilharem suas conquistas, como: conseguir contruir uma familia, manter uma boa relação com os outros em qualquer lugar, andar de cabeça erguida, um bom emprego pra quem a algumas 24hrs estava na rua pedindo dinheiro ou roubando pra conseguir mais uma droga, uma evolução espiritual, a amizade sem interesse, um homem que hoje tem o amor da familia e dos filhos, entre outras inumeras conquistas q só nós adictos e pouquissimas pessoas ditas "normais" conseguem dimensionar como realmente deve ser! Enfim... aquela "vontade de usar" que eu sentia quando só conseguia ouvir "relatos de uso de droga", mudaram quando eu mudei meus comportamentos e meu foco.
Hoje tudo que eu mais desejo é mais um dia limpo, em comunhão com tudo que me cerca, praticar minha honestidade rigorosa, e conseguir um dia parar de pensar na droga. Nunca esquecer dela, porque ela não esquece de mim, mas ter uma familia com quem me preocupar, talvez até chegar numa reunião onde exista um recém chegado e fazer o contrario do que alguns realmente fazem q é partilhar sobre meu uso de drogas. Passar a partilhar minhas conquistas diárias como uma faculdade, um trabalho, uma oportunidade de ser humilde e honesto!
Lembre-se: o NA é feito de pessoas com personalidades que podem errar. Pessoas e personalidades são falhas, assim como eu, ou você. A programação é extemamente simples...só depende do que eu estou buscando nas reuniões!!!!!!
Partilhe sempre força', fé e esperança, pois o propósito primordial da irmandade é levar a mensagem de recuperação ao adicto que ainda sofre, para que nenhum deles tenha que morrer sem experimentar a liberdade das drogas que a programação me proporcionou!
Obrigado... parabens pela sua faculdade!!!

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