quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Confissão

The Return of the Prodigal Son (Rembrandt, 1669)

Saudações colegas jornalistas e meus leitores no geral,

Chamo-me Petrus Evelyn, sou formado em jornalismo e gostaria de fazer uma confissão. Na verdade, duas. A primeira revelação é que eu sou Sid Garcia, que durante dezembro de 2007 até fevereiro de 2008, fez análises críticas sobre os meios de comunicação do Piauí. Todo o meu trabalho pode ser visto no site sidgarcia.blogspot.com. Na época, eu era apenas um estudante de jornalismo do 7° período de Comunicação Social e era divertido ver os jornalistas “experientes” se debruçando para descobrir quem eu era realmente. As suposições eram as mais irrealistas possíveis: de políticos conhecidos a intelectuais decadentes. Para os criticados, só poderia ser alguém conhecido e que fosse do meio, poucos imaginavam que poderia ser um mero estudante que debochava de todos enquanto também fazia um trabalho medíocre em algum portal insignificante de Teresina. Pois bem, esta é a minha primeira confissão e a mais leve até o momento.

A segunda é que eu sou viciado em crack. Eu li certa vez que o crack é a droga da amoralidade, que quem usa não conhece o certo ou o errado. Conheci a droga através de amigos, mas não foi através deles que me viciei. Viciei-me pela necessidade de desconhecer o certo do errado, por não querer saber qual caminho seguir. Eu lia e relia todos os dias os meus textos críticos do Sid Garcia, lia os comentários das pessoas que me admiravam e elas pareciam que sempre estavam a espera de um herói, alguém que pudesse dizer o que era preciso ser dito e eu era essa pessoa naquele momento. Isso me satisfez até o momento em que eu via que nada mudava e o pior: eu mesmo não mudava. Eu continuava sendo um profissional medíocre como a maioria dos jornalistas que eu criticava. O crack me permitia não enxergar mais esses defeitos como eu enxergava nos outros de maneira doentia (e não apenas nos outros como em mim mesmo também). A droga me deu a liberdade de não mais me importar se eu seria um profissional respeitado que conseguiria fazer um jornalismo diferente do que é praticado em nosso estado.
Hoje, eu tento ler um livro e não consigo. Tento escrever um texto e nada me anima.Parei com a droga há algumas semanas, mas o pior de todos os efeitos persiste: a vontade de não ser nada. Não tenho vontade de continuar nada, tampouco de me destruir. Tenho vontade apenas de esperar o tempo passar e que nada me pertube. A droga da amoralidade também é a droga da falta de paixões. Perde-se a paixão pela vida, a necessidade de se criar algo, antes tão forte em mim que queria construir algo para o mundo e de uma forma diferente, agora se transformou num vazio, que não me deixa fazer nada com ânimo. É como se eu visse o mundo como todos os outros, mas sem cores, sem música, sem sentimentos.

E, de repente, senti uma tristeza e percebi que aquilo era o primeiro sentimento puro que eu conseguia ter desde que larguei a droga. Eu estava triste com os rumos que a minha vida havia tomado e isso era um bom sinal: significava que eu estava começando a me importar de novo com tudo, que eu finalmente podia começar a perceber o quanto minha vida não estava valendo nada, que todo o meu projeto de ser um cidadão diferente estava sendo destruído porque eu tive medo de enfrentar minhas dificuldades e ao invés de lutar para melhorar, para conseguir ser o profissional que eu almejava ser como Sid Garcia, eu fugi e escolhi ser alguém que não se importa com mais nada.

Da tristeza senti uma enorma vontade de ter coragem de novo e revelar isso para todos. No começo achei que pareceria apenas uma maneira de evidenciar meu problema, eu pareceria um oportunista querendo um espaço na imprensa. Mas, que bobagem. Eu não faço isso pelo espaço ou por nada disso, mas porque como as outras pessoas antes precisavam de um herói para salvá-las, agora eu preciso ser o meu próprio herói e me salvar da auto-destruição patética pelas drogas.

Começo a ter novamente um certo encanto pela vida. E isso é bom. Certamente muitos me odiarão pelos comentários que eu fiz naquela época, outros dirão que já sabiam e outros irão me ignorar. Mas acho que nada disso importa ou se importa, são coisas importantes para a vida que todos deveriam viver algum dia, mesmo sendo desagradáveis.

E agora farei uma coisa que eu fazia na época em que eu era o Sid Garcia, o grande herói dos reprimidos que agora se humilha em público, não lerei nada do que eu escrevi nesse texto. Não consertarei meus erros gramaticais, não mudarei nada do que escrevi. O que está escrito, está escrito. Não tem volta ou conserto, como a própria vida.

Obrigado.

Petrus Evelyn Martins.

Um comentário:

blogão.com disse...

Parabens petrus pela coragem, lhe admiro muito, agora temos uma outra imagem da vida, vamos ela de outra forma, o mundo continua igual aqui fora, mas quem mudou foram nos, com nossa força de vontade, lhe desejo tudo de bom, fé, força e esperança de um amigo que se fez na dificuldade LUCAS ALCANTARA

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