sábado, 7 de agosto de 2010

Juízo

- É difícil estar aqui, confesso que é extremamente difícil estar nesta vida, mas eu tento. Por favor, preciso de outra chance, faço qualquer coisa para que... para que o senhor possa me dar outra oportunidade.

O Senhor caminhava de um lado para o outro, pensativo. Perguntou por fim o que ele faria com mais uma oportunidade e o Escravo respondeu:
- Eu farei tudo o que eu não fiz na primeira tentativa. Reverei os meus erros, repetirei os meus acertos. É um trabalho difícil, senhor, não é justo que eu não tenha infinitas chances de tentar novamente.

O Senhor disse que isso era muito fácil de ser dito, que os homens eram sempre assim, pediam mais oportunidades e acabavam fazendo as coisas todas iguais, por que ele seria diferente de todo o resto que veio antes dele?

- Senhor, eu não sei porque eu seria diferente de todo o resto, talvez eu nem tenha motivos para ser diferente, mas, sabendo disso, sabendo que os outros cometeram as mesmas falhas, talvez eu consiga mudar, fazer diferente.

O Senhor sorriu, achou graça das palavras e perguntou então por que não foi diferente antes, nas outras oportunidades que possuiu, lembrando-o que nas outras vezes sabia também que seus antecessores haviam falhado.

- Realmente, eu sabia e permiti que o erro me achasse. Mas, envergonhado por ser mais um igual aos outros, humilhado por ter errado quando prometi não errar, esperançado depois que perdi tudo, o que mais posso tentar a não ser acertar desta vez? Deixa-me, imploro-lhe, senhor, outra oportunidade para um pobre homem que pede humildemente.

Difícil é, disse o Senhor, dar chances e mais chances para quem do erro é amigo. A confiança em ti eu perdi, como seria diferente? E lembrou-se de mais o Senhor: o erro era confortável para o Escravo, errar era sempre mais fácil do que acertar, o caminho largo é mais fácil que o estreito, parafraseou.

- Não tenho palavras contra as suas, senhor. Tentei e não consegui. A minha primeira punição foi tentar novamente e fui punido diversas vezes repetindo-se as chances que o senhor me deu. Sabendo que não importava as chances que eu teria, mesmo assim eu viveria a vida do mesmo modo que os outros viveram: intimidado, acovardado, invejoso e preguiçoso. Não adianta, é verdade, tenho noção disso. Mandar-me para o sofrimento eterno será uma recompensa para os meus dias de vergonha.

Compreendido, o pobre Escravo encaminhou-se para o inferno. Lá ele foi feliz, o senhor contou.

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