segunda-feira, 26 de julho de 2010

O homem ordinário

Conto-lhes agora sobre um homem que conheci. Não lembro o seu nome ou onde o encontrei, mas isso não importa quando somos todos iguais.

Este homem era um pouco de tudo, não era quase nada. Também não era velho, nem moço, nem muito sábio ou de todo ignorante. Era um homem ordinário que queria apenas um pouco de fama para sua vida. Sim, ele queria ser conhecido, admirado pelos tolos e amado por mulheres sem miolos. Ele queria cantar, fazer poesia, escrever versos de agonia para multidões loucas por suas tonalidades, ele queria ser o ídolo de todas as idades.

Mas o Homem Ordinário percebeu que não era um homem infeliz, na verdade, o seu passado não havia lhe deixado nenhuma cicatriz. Como se fazer sucesso quando não se tem nem um abscesso? Apenas uma vida cheia de trauma pode a um fã encantar a alma.

O Homem Ordinário não desistiu. Era de um grande amor que ele precisava, assentiu. Sua namorada era uma boa moça, devotada e as boas canções sempre traziam do amor as melhores emoções. Mas, que infortúnio o que ele descobriu! O seu amor, a sua garota, era mais sem graça do que uma gota. Ela não tinha nada e o seu amor não era divino, como escrever sobre um amor tão pequenino? Com um amor tão comum e vulgar com a fama eu não devo nem sonhar.

Encontrou então a política e a miséria. Criticar os corruptos tinha sempre melhor efeito que lhes fazer pilhéria. Não acredito, o país vai bem?! Poucos escândalos nacionais, nenhum louco tiranizando o povo está nos jornais! Que desgraça, ele lamentou, por que foram inventar de viver bem essa populaça?

Oh, foi assim que o Homem Ordinário ficou ao relento, com nenhuma razão para mostrar ao mundo o seu talento. Não tinha um grande amor, tampouco passado infeliz e o país, sempre cheio de lama, foi logo agora dividir entre o povo a sua dinheirama?

Decidiu viajar, espairecer, ele queria a cidade grande conhecer. Foi lá e visitou, o Homem Ordinário um pouco se encantou. Ele precisava de novo ar, para a sua vida antiga apagar. Conheceu a capital, mas logo se sentiu mal. O que era aquilo? Eu nunca senti falta dos meus amigos, mas longe deles, penso sempre neles comigo. E o meu amor? Aquela sem sentido, longe de mim me sinto um perdido.

O que acontecia com o Homem era a saudade da sua preguiça, o seu conforto e sua cama, mesmo que eles atrapalhassem a estrada da fama, ficar sem eles seria o mesmo que uma injustiça!

Voltou para sua casa, estava humilhado, e foi então que uma amiga o visitou. Era a Dona Mentira, ajudante dos traidores, filha do diabo. Ela disse-lhe assim:

“Homem de bem, homem de quem? Venho lhe ajudar a sua fama alcançar. Vejo que muito já tentou, mas nada lhe ajuda ao sucesso chegar sem amargura. Sei que é difícil o conhecimento alcançar quando não se tem um passado a lamentar ou um amor a declamar ou um país a criticar. Mas, digo-lhe, este é o segredo, siga o que eu conto e vá para o sucesso como um torpedo!”

Desde então a sua vida mudou, o Homem, aquele antes Ordinário, inventando histórias sobre sua vida, tornou-se um revolucionário. Transformou todo o seu passado: o seu pai, antes um pobre coitado, agora era um homem violento e viciado. Batia em seus filhos e sua infância foi um tormento, sem falar na mãe, uma louca que só falava em convento.

Ele também mudou o seu amor. Antigamente sem graça, uma chatice, agora era uma doidice. Era divino, especial, o amor por sua namorada era monumental. Escrevia versos para ela e os cantava, apaixonada!, e as mulheres na plateia choravam, encantadas.

Falou também sobre políticos cretinos, desgraçados, a morte era seus destinos. Incitou o povo à revolução, se o país ia bem, que se danem, destruam tudo e refaçam desde o chão!

E o Homem Ordinário finalmente ficou conhecido, da noite para o dia não vivia mais escondido. Eram autográfos, uma loucura, ele era agora um ícone da nossa cultura.

Um artista e sua arte agora ele levantava o seu estandarte. Tornou-se bonito, ele já fazia parte do rito: esqueceu seu amor, seu passado simples, agora era todo orgulho e arrebites. Por isso talvez ou por motivo nenhum que outra amiga o visitou, eles tinham algo em comum, era ela a verdade, Dona Verdade, que assim falou sem vaidade:

“Meu caro homem Comum, senhor ordinário, como está o seu salário? Vejo que está bem, trocou as roupas e um novo carro, tem novas mulheres e está fumando fino cigarro. Eu vim para lhe apresentar a verdade a pobrezinha sempre esquecida. Diga-me: acredita mesmo em tudo ao seu redor?”

O homem famoso respondeu:

“Dona Verdade, peço-lhe perdão por causa da minha traição. O que fazer para se ter sucesso quando se é uma pessoa feliz e realizada? Nunca tive uma mágoa nem com comida estragada! Eu tinha um passado bom, mas de que isso valia se ninguém entendia meu som? E o amor? Que decepção. Os mitos me diziam que era só diversão. Qual nada. Meu amor, a única que poderia me trazer fama era mais vulgar que uma puta deitada numa cama. E o meu país, antes cheio de corruptos, de repente estava em lucro abrupto! Como poderia eu assim fazer sucesso? Como pode um homem tão ordinário na vida ter algum progresso?”

A Dona Verdade caminhou e ela olhava do cantor o camarim, as palavras de sua resposta foram mais ou menos assim:

“Meu jovem cantor, até posso dizer que entendo a sua dor, mas como você pode dizer que seu passado era feliz e sadio quando só o que eu vejo é um homem extremamente vazio? E do seu amor, a coitadinha, por que acha que a simplicidade não tem valor? Você vendeu sua alma para ser um homem conhecido, mas acha mesmo que dos fãs alguém que se importa com você além do estampido? Que desesperado é um homem que troca a tranquilidade por uma vida de iniquidade. Não me interessa nem mesmo conversar com alguém que a sensibilidade não tocará”.

Dita as palavras, o Homem Ordinário acordou. Era tudo um sonho, não havia verdade, não existia mentira. Ele estava num palco, cantando para seu público, mas depois daquilo nenhuma palavra mais foi dita.

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