quinta-feira, 3 de junho de 2010

O revolucionário do fim do mundo

Abaixo as máquinas fotocopiadoras. Abaixo as cópias ambulantes. Abaixo os clones. Abaixo os ditos populares. Abaixo o senso comum. Abaixo as citações. Abaixo a fama. Abaixo os influenciados. Abaixo a eternidade!

O Revolucionário escrevia tudo que mais odiava em seu caderno. Abaixo a quem acredita em minhas palavras! Abaixo a quem acredita nas próprias palavras! Abaixo quem escreve abaixo qualquer coisa! O Revolucionário olhava para a cidade em que vivia e sentia compaixão, uma compaixão orgulhosamente superior: “que fazem sendo os mesmos todos os dias para sempre, não se cansam?”. Ele nunca se cansava e escrevia mais uma vez “Abaixo! Abaixo!” para qualquer coisa que representasse a repetição de ideias, tudo que não fosse uma criação original, partindo do nada para uma coisa absolutamente nova e genial, era considerado inferior pelo rapaz que escrevia suas palavras em um quarto escuro, iluminado por uma vela quase a apagar, para não vacilar diante dos prazeres “mundanos e desnecessários da energia elétrica”.

Os planos da sua Revolução eram simples: destruir toda a memória do mundo. Livros, história, frases feitas, pensamentos, pensadores. Os pensamentos sobre a sociedade eram inúteis, a história ainda mais. Para que prender-se ao passado? E sempre dava respostas aceitáveis para suas dúvidas mais profundas – todas breves: o mundo vivia preso a ideias filosóficas criadas há milênios e ainda não havia se desprendido disso, adaptando não o pensamento à análise da sociedade mas a sociedade que se adaptando para caber no pensamento. A Revolução apagaria a história e olharia para o presente. Não, este modo de escrever é inapropriado: a Revolução apaga a história e olha para o presente.
“A história torna pobre o espírito da sociedade”, escreveu. O Revolucionário queria um novo dia para acordar todas as manhãs. E que tudo fosse criação. “Que se destrua tudo. Mesas, cadeiras, computadores. Abaixo! a tecnologia. Que se destrua as profissões, as instituições, as regras. Que o homem seja destruído! Abaixo o homem e suas miniaturas aprendendo a falar!”

O Revolucionário escrevia rápido, pois em breve teria que escrever “Abaixo os cadernos, abaixo os lápis, abaixo as canetas que escrevem mensagens tolas”. Vamos, eu preciso escrever rápido o nome de tudo que precisa ser destruído e tudo precisa ser destruído. Abaixo o momento que fez-se luz!

O primeiro passo para destruir o mundo seria destruir o criador daquelas ideias malditas. Era o que estava mais perto de se fazer em sua Revolução e sabia que em uma revolução deve-se fazer primeiro o que está mais ao seu alcance. Pegou um revólver, pensou um pouco, escreveu no papel “abaixo os suicidas capitalistas” e pulou da janela do seu apartamento.

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