quinta-feira, 27 de maio de 2010

A carta suicida

Cansei de ser carta. Das cartas que fui, tornei-me um pedaço de todos aqueles sentimentos que em mim foram escritos: amantes desamados tentando transcrever seus desesperos, diplomatas vaidosos tentando iniciar e depois parar uma guerra, amigos solitários que buscavam que o passado lhes desse algum futuro, pais saudosos esperando notícias de seus filhos distantes. Todas as vezes que procuravam-me para em mim colocar todas suas dores, eu não as enviava, mas sim guardava todas as angústias das pessoas que em mim escreviam. Mesmo quando felizes cartas escreveram, ficava, em mim, apenas uma dolorosa dúvida: quem escrevia sobre sua felicidade jamais dela estava certo, tampouco satisfeito.

Fartei-me. Não sou humano para saber o que há além das palavras – para mim, nada -, não sou mais a árvore que virou papel para estar na natureza. Sou apenas um papel em branco que nada serve além de criar fantasias que não existem. Por certo, salvei algumas vidas e também sei de minhas qualificações para trazer sorrisos e lágrimas, mas estou cansada de não ter meus próprios sorrisos e alguma vida.

Quero que as pessoas escrevam menos e sintam mais. Que esqueçam todas essas pomposas frases cheias de sentido e vazias de sentimentos. Destruo-me para mostrar ao homem que ele distancia-se da sua humanidade ao transformar-se em palavra, ao contarminar seus sentimentos com poucas palavras que tão distantes do seu coração estão.

Peço, sem vontade, mas, apenas, pela educação que aprendi a ter dos grandes homens que em mim escreveram, com palavras doces diziam barbáries e impropérios, perdão a todos que idolatram a escrita como fuga para suas vidas. A vida, em minhas linhas, nunca existiu.

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