segunda-feira, 3 de maio de 2010

Anjos da tortura

Acordo sendo jogado em uma cadeira elétrica. Não aquelas cadeiras elétricas comuns para criminosos, mas uma cadeira de tortura, com a eletricidade regulada para fazer a pessoa sofrer, mas jamais morrer. Não sei quem são meus algozes, eu estava dormindo e... espera, eu estava dormindo? Não consigo lembrar da última vez que fechei os olhos e acordei aqui. Simplesmente estou aqui levando socos e choques por homens encapuzados. Que lugar é este? Tento ver entre um soco e outro onde estou. É uma cabana velha, provavelmente no meio de uma floresta distante, pois não ouço nada do lado de fora além de grilos. Tento ignorar os choques enquanto me recordo onde eu estava na noite passada. Os torturadores não dizem nada, apenas ligam a eletricidade, desligam-na, espancam, às vezes me acordam de um desmaio acidental com água fria, depois me jogam água quente e só. O que será que eles querem? Se eles ao menos dissessem alguma coisa... mas, de novo, onde eu estava na noite passada? Deixem-me recordar, por favor, peço só 5 minutos de descanso, depois disso vocês podem compensar com violência extra! Eu peço para eles, que me ignoram. Sim! Descobri! Homens com capuz, cadeiras de tortura, espancamento sem motivos, cabana no meio de floresta desconhecida. Estou dentro de um filme clichê, só pode ser isso e soco! Mas como dói. Não creio que seja isso, mas que poderia ser, eu não acharia ruim, ao menos isso teria um fim. Um deles pega uma maleta de instrumentos e começam a rir. A variedade é imensa, até eu fico interessado em saber o que eles usarão em mim. Será que usarão aqueles enormes alicates de dentista ou aquele martelo brilhoso? Provavelmente usarão os dois e eu preciso me apressar em pensar onde eu estive na noite passada para acordar neste lugar. Procuro algum detalhe na roupa dos espancadores e no cenário em que estou para descobrir quem eles são, o que eles querem. Um emblema de uma organização, o símbolo de um partido, a marca de uma religião, qualquer coisa. Nada encontro. Estão todos vestidos de preto sem nenhum detalhe visível e o cenário não revela nada além de um lugar sombrio, com pouca luz e vários instrumentos de tortura. Senhores, eu digo, se vocês me disserem o que desejam, com paciência, eu não terei nenhuma objeção em dar-lhes, não importa o que seja. Tento ser o mais educado possível, mas acho que isso os desagrada, pois eles nem me olham e uma martelada quebra o osso do meu dedo mindinho. Agora sim! Descobri, enfim, eu estou dentro de um sonho, pois quase não sinto dor e aaaaaaahhhh! Não estou em um sonho e a dor começa a se sentir pelo dedo perdido. Eles me dão alguma coisa para aliviar a dor, para que eu suporte melhor a tortura, será que é sempre assim ou só quando já estou perto de morrer? Eu já nem lembro de como tudo isso começou, como eu lembraria da noite anterior? Alguma coisa eu devo ter feito para ter merecido isso. Com certeza fiz e eu mereço toda essa dor. A dor é menor quando eles vão quebrando os outros dedos, variando entre esmagamentos com martelo e com o alicate. Às vezes um pedacinho de pele ainda fica presa ao meu pé, tentando sobreviver e eles pegam uma longa tesoura e retiram o resto. Não tenho mais nenhum dedo nos pés, mas que importa isso se não sei nem o que estava fazendo para estar aqui? Talvez eu esteja pensando errado e preciso pensar rápido, pois não viverei para sempre. Sim, eu preciso pensar que talvez não tenha sido na noite anterior, mas pela manhã. Posso ver que é noite, pelo menos a escuridão daqui me diz isso, então eu devo ter cometido algum pecado durante a manhã. Um pecador pelo amanhecer, imagino que esses devem ser os piores. Acordam o mundo com o erro, o crime. Será que eu sou assim? Tento conversar novamente com os justiceiros: Senhores, façam-me a gentileza de me dizerem seus motivos, se não têm propósitos, devem ter motivos. Motivos nobres, suponho. Eles não me olham, o que me faz supor que talvez eu não esteja falando de verdade, mas tudo que eu tenha dito até o momento foram apenas pensamentos. Falo, falo, falo e nada sai, são pensamentos isso tudo e percebo que eu não tenho mais uma língua para falar, ela foi cortada e está ali no chão, sem mais nada para dizer. Será que cortaram com aquela bela faca que está sobre a mesa? Parece que sim, ela foi especialmente usada para cortar minha língua e nada mais, um pedaço especial do corpo. E como são gentis esses senhores, estão agora a cauterizar as feridas dos meus pés. Absolutamente não desejam saber que eu morri por hemorragia ou infecção, mortes assim tão naturais e fora do controle do humano. Percebo que em minha mão esquerda tem um lápis e sob ela um papel. Devem estar me confundindo com outra pessoa, certamente, pois eu não sou canhoto. Então tudo isso não passa de um engano e estão fazendo o serviço em um destro, quando quem deveria estar aqui era um senhor canhoto? Olho para minha mão direita e vejo que ela não está mais lá. Então era isso o que eles pensaram o tempo todo? Como eu poderia escrever sem uma mão? Acho que não deve ser tão difícil assim aprender a usar o outro lado do corpo. Tudo, afinal, resume-se a exercícios. Fico feliz por ainda haver sensibilidade neste mundo, principalmente por parte de tais cavalheiros que me fizeram a delicadeza de colocarem o lápis e a folha de papel na outra mão, sabendo que eu não poderia mais utilizar a mão que eles me cortaram. Não posso escrever algo muito extenso, o papel é tão pequeno e minha mão treme, preciso escrever alguma coisa que indique meu respeito. Pensei em escrever JUSTIÇA, como forma de admiração a esses bravos senhores. Gostaria de poder lhes mostrar que respeito a justiça que estão fazendo. Não consigo me imaginar fazendo o serviço que eles precisam fazer. Finalizar o pecado do mundo, destruir o crime, matar de forma justa. Imagino que esta seja uma das profissões mais próximas de Deus. Se eu ainda tivesse uma língua, gostaria de perguntar-lhes seus métodos de trabalho, queria ver suas agendas de compromissos profissionais, o organograma de sua empresa de justiças. Deve ser um trabalho extremamente especializado. Certamente o é. A palavra justiça não é adequada, afinal. Podem achar que eu exijo justiça, ao invés de mostrar que eu entendo a justiça em seus atos. Que falta de caráter eu seria se deixasse uma mensagem dúbia em meu último momento de vida, morreria como criminoso. Cometeria outro pecado enquanto estão me limpando dos tantos que possuo para morrer limpo. Acho que agora não importa mais o que eu fiz na noite anterior, que pode ser uma manhã, mas que provavelmente foi minha vida inteira de erros cometidos. Pensei na palavra COMPREENDO, significando que eles não precisam me temer. Honrados que são meus anjos da justiça, eles devem sentir medo de mim, medo de que eu não tenha entedido o recado, medo de que eu pense que toda essa dor que eu sinto seja desnecessária. Que estupidez e certamente muitos pensam assim, talvez todos! Será que apenas eu consegui enxergar a beleza e a justiça por trás da dor e da violência? Não posso me sentir especial neste momento da minha vida, isso seria outro erro. Acho que eles deixarão minha mão esquerda por último, eles esperam uma mensagem minha antes de cortarem o meu pescoço fora, acabarem com essa tão fina tortura. É este o propósito e motivo de tais profissionais: fazer-me ver que eu preciso disso! Sem usar palavras, sem me dizerem nada, eu precisava saber através da dor que a dor que eu causei ao mundo precisava ser sentida por mim. Quando eu nasci, dei a primeira dor a minha mãe rasgando-lhe o ventre com a bela violência que nasce um bebê. Agora a mesma dor volta para mim e eu só posso escrever uma mensagem: OBRIGADO.

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...