segunda-feira, 29 de março de 2010

Espelunca


The Garden of Earthly Delights (Hieronymus Bosch, 1490)
Ontem eu conheci o grande amor da minha vida e ela é uma prostituta de uma espelunca qualquer. Não lembro como cheguei lá, mas minha memória começa a funcionar, eu estava acendendo um cigarro e lá estava ela, ao meu lado, dizendo que estava tentando parar de fumar depois que tinha descoberto o câncer. Perguntei quando ela descobriu e ela disse anteontem, perguntei onde era e ela disse no estômago. Dá pra sentir? Ela disse que não. Eu sempre quis sentir um câncer crescendo numa barriga como se fosse um bebê que ao invés de trazer a vida ao mundo, traz a morte. Ela parou de fumar para evitar o câncer dentro dela, eu fumo para nascer um dentro de mim. Mas isso é o que ela diz, é claro, e ela é o amor da minha vida, mas não posso confiar tanto assim nela. Quem sabe ela não mente? Amores sempre trouxeram sofrimento e dores e lágrimas e tormentos, o que traz a felicidade é a solidão e eu não gosto de estar sozinho.


Quantos anos você tem? Dezessete. Que idade! É perfeita para mim e não viverá muito, por isso não preciso me preocupar. Você sabe que eu sou casado? Não me importo. É uma mulher perfeita. Ela me pede um cigarro, afinal, diz que não aguenta ver uma pessoa fumando. Eu digo que não darei nenhum, pois meus cigarros são caros e dou uma baforada na cara dela. Ela insiste e eu entrego o que estou fumando, na metade. Você se zanga comigo por eu fazer isso? Não, ela diz triste, fica ainda mais linda quando seus olhos exprimem tristeza, mas é uma tristeza orgulhosa, de quem finge não se importar. Gostaria que minha esposa fosse como você, mentisse para mim como toda mulher mente, mas que sua atitude continuasse a mesma, rígida, impassível, minha mulher diz que não está com raiva de mim ao mesmo tempo que me trata com ignorância, acredita? É uma puta, isso sim, preferia que me traísse com todos os homens da Terra, mas não me enchesse o saco nunca. O que é impassível? Ah, não importa, você é assim e pronto, agora se cala. Sim, senhor. Peço uma cerveja e pergunto se ela aceita. O copo que me entregam está sujo de batom e já fede a cerveja antes de eu colocar. Eu parei de beber, ela diz. Por que parou, meu amor? O médico disse que eu deveria evitar. Por causa do câncer? Não, só uns negócios aqui. E ela aponta pro meio de suas pernas. O que é? Fala. Ah, só um caroço. Você acha que um caroço vai te matar se você beber um gole? E eu encho o copo dela. Estou animado e feliz, ela deve ser a menina mais bonita daquele lugar, tem uma caída ao meu lado, drogada. Outra chupando um gordo suado na mesa do outro lado. Não tem quartos aqui? Que cena nojenta aquela. Ela me diz que com quarto é cinco reais. Tem ar condicionado? Tem ventilador de teto. Não é tão ruim. Continuo olhando o lugar e anunciam um stripetease: uma mulher gorda começa a dançar e uns dois bêbados sobem no palco, ela chuta a cara de um e o segurança puxa o outro. Eu pergunto se tem alguém decente por aqui, alguém não tão sujo quanto este lugar. Nem sei por que perguntei isso, mas ela respondeu que não entendia o que eu estava perguntando, mas se eu queria alguém direito, tinha aquela criança ali, uma menininha de uns 3 anos sentada em uma mesa, bebendo um refrigerante. Ela é uma gracinha, é sua? Não, os meus estão lá pra dentro, essa daí é nossa, colocaram ela na porta daqui quando ela era só um bebezinho.

Você gostaria de se casar comigo, viver numa casa, se tornar moça direita? Eu te tiro daqui. Ela pensa enquanto vira o copo de cerveja. Me pagando a hora, eu sou o que você quiser. Você é o que eu quiser. Diga-me, sua linda puta sem orgulho, isso não é o amor verdadeiro entre duas pessoas? Ser o que o outro quer. Você será o que eu desejar e eu serei o que você quiser. O que você quer que eu seja? Quero que você me pague logo, estou com fome. Dou-lhe um tapa no rosto e ela repete: vamos, paga. Ela não reclama e tiro do bolso um chiclete. Ela mastiga. No mesmo bolso, procuro algumas moedas, tiro as de maior valor e dou o resto. Vai, compra pão de ti e ela sai feliz, era toda a sua felicidade. E agora preciso fugir, antes que meu amor volte, pois não posso ser feliz com ninguém.

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